Vivências de um psicanalista

Autor(es): Zimerman, David
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21 capítulos

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1 A inesquecível lição que aprendi com dona Paulina, minha mãe

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2 Uma difícil, penosa e tocante experiência com seu Jacob, meu pai

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das zonas obscuras da mente de nossos pacientes, tal como minha mãe fez comigo.

Fiz questão de começar este livro com o relato desta lembrança como uma forma de homenagear e agradecer à memória de minha humilde e muito querida mãe.

UMA DIFÍCIL, PENOSA E TOCANTE

EXPERIÊNCIA COM SEU JACOB, MEU PAI

Meu pai não era um judeu dos mais religiosos. Passava a totalidade do ano distante das sinagogas, mas nos feriados religiosos essenciais, como é o caso do Rosh-Hashaná (Ano Novo judaico) e do Yom Kipur (Dia do

Perdão), ele cumpria todo o cerimonial religioso, ficando dentro da sinagoga o dia inteiro, inclusive jejuando no Dia do Perdão. Da mesma forma, lembro que oficiava para nossa família, dentro de casa, a liturgia do Pessach

(Páscoa judaica), entremeada de lindos cantos, que todos cantávamos juntos. A cerimônia era coroada com uma magnífica ceia, que minha mãe preparava sozinha.

Um arraigado hábito da cultura judaica da época impunha que os filhos freqüentassem a sinagoga por ocasião das festividades das datas que já mencionei. Durante muitos anos, eu, como meus cinco irmãos e todos os conhecidos, colegas e amigos da minha geração, cumpríamos de forma prazerosa este costume. Na pior das hipóteses, o filho deveria dar uma passadinha no lugar onde o pai estava sentado e cumprimentar a ele e aos demais conhecidos que estavam nas cercanias.

 

3 O primeiro dia de “aula” de minha vida

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O PRIMEIRO DIA DE

“AULA” DE MINHA VIDA

Eu tinha aproximadamente 6 anos, estava brincando, tal como um arqueólogo, de cavoucar na terra para descobrir tesouros no pomar que havia nos fundos de nossa casa. Subitamente, apareceu a minha mãe, trazendo nas mãos um uniforme de calça curta azul e blusa branca, dizendo que, conforme tínhamos combinado, chegara a hora de ela me levar ao colégio Israelita, que ficava bem pertinho de nossa casa. De fato, eu já não continha mais a vontade de me alfabetizar, para poder acompanhar meus irmãos mais velhos na escrita e na leitura. Tomei banho, vesti o uniforme (fiquei orgulhoso ao me ver no espelho) e, em um misto de vibração e medo, acompanhei minha mãe até a escola, que, então, ficava nos fundos da sinagoga. Ela me perguntou se eu concordava em voltar sozinho para casa após o término da aula, e eu concordei. Era só dobrar uma esquina e caminhar um pouco; naquela época era raríssima a presença de automóveis; o que, de longe, predominava, era o movimento de carroças.

 

4 Uma interessante tomada de posição por parte de Letícia, minha netinha, então com menos de 2 anos

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seus alcances, mas também os seus limites e suas limitações, de construir nela um senso de responsabilidade, além de reconhecer e aceitar as inevitáveis diferenças que existem entre todas as pessoas.

Ao longo de algumas análises, seguidamente observo em pacientes adultos o quanto determinada conduta de um(a) professor(a), quando tais pacientes eram crianças ou adolescentes, tanto no sentido positivo (tolerância às eventuais falhas e erros, reconhecimento dos esforços e méritos, um eventual prêmio, crença em suas capacidades latentes, aplauso e incentivo), quanto negativo (uma crítica negativa permanente, uma excessiva demanda de expectativas, que ultrapassam a capacidade do aluno, humilhações públicas, ameaças de reprovação, castigos, etc) pode determinar uma poderosa influência, saudável ou insana, na construção da personalidade do futuro adulto.

Outra reflexão é sobre a coincidência de eu, menino pequeno, estar brincando de arqueólogo no meu primeiro dia de aula: será que era uma previsão de que, no futuro, eu escolheria a profissão de médico, dedicandome a cavoucar nos enigmas do corpo, e, especialmente, de psicanalista que, no fundo, faz um levantamento arqueológico das mentes e almas das pessoas?

 

5 A imorredoura lição que meu filho Alexandre nos legou: saber viver e morrer com dignidade

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Outra reflexão que cabe fazer alude ao fato de que, em diversas situações psicanalíticas, muitos pacientes revivem, na transferência com seu analista, uma espécie de “resistência”: por exemplo, o paciente fica em um estado de mutismo prolongado ou entra em períodos de muitos atrasos e faltas às sessões, etc. (ver a vinheta 50, sobre a “Resistência de Sandra”). O importante a considerar é o fato de inúmeras vezes o analista interpretar a resistência como uma manifestação negativa, hostil, quando, na verdade, ela pode estar tendo um significado altamente positivo, no sentido de o paciente estar buscando autonomia, liberdade e espontaneidade, tal como a menina Letícia comprovou.

A IMORREDOURA LIÇÃO QUE MEU FILHO

ALEXANDRE NOS LEGOU: SABER VIVER E

MORRER COM DIGNIDADE

Quando estava rememorando situações com meus familiares queridos para incluir neste livro, comecei a redigir uma vinheta que levava o título de A imorredoura lição que recebi de meu filho Alexandre de como adoecer e morrer com dignidade. Para quem desconhece o fato, torno público que há mais de 15 anos perdi um filho de 21 anos, que, desde o nascimento, apresentava um quadro clínico de hemofilia, embora de grau moderado. Além de ser um alegre, brilhante, talentoso e, sobretudo, muito criativo publicitário,

 

6 Os sucessivos casamentos e descasamentos do meu amigo Artur

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idade eu já não descreio em mais nada. Tudo é possível. Fiquei com a nítida impressão de que o olhar de Alexandre adquiriu um certo brilho de alívio e de esperança.

Desde então, tenho adotado a forma como Alexandre encarava a vida e a morte, com realismo, mas conservando uma luz de esperança, e inúmeras vezes emprego as sábias sentenças de meu filho Xandi para pacientes, em casos nos quais eles próprios ou familiares íntimos estão em fase terminal de alguma doença grave. Muitas vezes eu me perguntava e continuo me perguntando de onde Alexandre tirou tantas forças. Como podia ser tão estóico diante de uma sentença de morte tão prematura e tão injusta?

Além de toda a cobertura de carinho que ele teve todo o tempo, fato que eleva a moral, a auto-estima, e uma sadia resignação, hoje entendo que a própria hemofilia que ele teve que enfrentar desde bebê criou nele um estado mental que na psicanálise moderna chamamos de RESILIÊNCIA.

Essa expressão designa o estado psíquico que certas pessoas possuem, uma poderosa força interna que conjuga aspectos emocionais, espirituais e, certamente, as pulsões de vida voltadas para o desejo de viver, não obstante, ou talvez por isso, possam estar passando por sérias dificuldades. Estudos recentes comprovam que a consolidação de um estado de resiliência se forma a partir de três fatores: uma condição inata, genética; situações ambientais adversas ou um prejuízo orgânico com características de cronicidade e condições familiares, sociais e profissionais em que exista muito amor e reconhecimento.

 

7 Walter, o bonitão de nossa turma, e a sua mais difícil conquista amorosa

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os pais da infância, em primeiro lugar – também estão internalizados e representados no inconsciente do sujeito de uma forma ativa, e a interação dos personagens no fundo do psiquismo compõe uma espécie de teatro da mente, com um enredo que tende a se repetir na vida exterior. Mudam os atores, porém os personagens do enredo (script) são os mesmos.

Assim, não foi por mero acaso que Artur escolheu mulheres que eram maternais – aspecto que ele idealizava no início do relacionamento – mas que também eram possessivas, controladoras, cobradoras e asfixiantes. Em um esforço de memória, recordei que eu conhecia a mãe de Artur e que o perfil dela como mãe e esposa coincidia justamente com o das companheiras de meu “azarado” amigo.

O importante a refletir é que um tratamento de base psicanalítica talvez seja o caminho mais importante para possibilitar uma substancial mudança nos scripts que estão fixados no psiquismo e que, enquanto estes não se transformarem, vão continuar determinando comportamentos neuróticos.

 

8 Paulo e seu carro com cinco antenas de rádio

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tinha fortes traços narcisistas. Dizendo com outras palavras, pessoas com este perfil de personalidade, acima de tudo, têm uma necessidade vital de ser reconhecidas pelos demais e por si próprias como sendo bonitas, poderosas, irresistíveis e capazes de despertar inveja nos outros (a quem, nas profundezas do inconsciente, eles invejam). A auto-estima deste tipo de pessoa gira em torno de seu próprio umbigo. Só “amam” a quem as ama. Muito mais do que a prática do sexo genital, o que importa a elas é satisfazer necessidades bem mais primitivas, pré-genitais. Tudo isso se deve a uma tentativa inconsciente de compensar uma enorme insegurança interior, decorrente de um grande temor de não serem aceitas e suficientemente amadas, correndo o risco de vir a ser rejeitadas, provavelmente repetindo um mesmo temor que devem ter tido em sua infância remota.

PAULO E SEU CARRO COM

CINCO ANTENAS DE RÁDIO

Também fazia parte da turma o nosso amigo Paulo, filho de uma família abastada, que se diferenciava de todos nós porque possuía um belo carro,

 

Na Santa Casa de Misericórdia

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Na Santa Casa de Misericórdia

OS BERROS DE “DOR” DA JOVEM

SÔNIA EM SEU PRIMEIRO PARTO

Quando eu cursava o quarto ano de medicina, o professor de obstetrícia nos levou até a maternidade Mario Totta da Santa Casa para assistirmos a um parto normal. A parturiente Sônia estava tranqüila, até o obstetra de plantão começar a efetuar as primeiras condutas rotineiras, sempre pedindo a colaboração dela ao começar o trabalho do parto. A partir daí Sônia começou a gritar, sem parar, com berros lancinantes, cada vez mais fortes e algo assustadores. Parecia um sofrimento atroz, aparentemente não justificado. A situação prosseguia neste “clima de horror” até que o médico auxiliar perguntou: Escute, Sônia, está doendo tanto assim?. Perplexidade geral: ela parou subitamente de gritar e, com uma voz normal, algo incrédula, perguntou-lhe: Mas doutor, não é para gritar, para auxiliar o nascimento do bebê? Minha mãe e uma vizinha me ensinaram isso.

REFLEXÕES

Essa situação permite refletirmos sobre a importância dos fatores culturais.

 

No Hospital de Pronto Socorro (HPS)

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No Hospital de Pronto Socorro (HPS)

MEU PLANTÃO NO HPS

NO DIA EM QUE O PRESIDENTE

GETÚLIO VARGAS SUICIDOU-SE

No dia 24 de agosto de 1954 – eu era doutorando interno do HPS – pela manhã, bastante cedo, eu já estava no hospital para cumprir meu plantão normal, que constava tanto de atender dentro do hospital, como também de exercer as funções de médico socorrista, em situações de emergência externas. Aos poucos foi se espalhando, qual rastilho de pólvora, a bombástica notícia de que o presidente Vargas não teria suportado a pressão movida contra ele pelo atentado contra a vida do seu maior opositor, Carlos

Lacerda, juntamente com a avalanche de notícias de corrupção e de violências praticadas sob a liderança de seu guarda-costas Gregório. O presidente acabara se suicidando com um tiro no coração.

Diziam mais: que Vargas deixara uma carta-testamento, em que acusava as “forças imperialistas” de sabotarem seu governo “voltado para o povo” e que ele “estava saindo da vida para entrar na história”. As notícias cresciam como bolas de neve: em muitos lugares do Brasil havia a formação espontânea de movimentos populares, investindo agressivamente, de forma predadora, contra empresas, grandes ou pequenas, que tivessem supostas ligações com as “forças imperialistas”, com políticos da direita, e coisas assim.

 

No Hospital da Criança Santo Antônio

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No Hospital da Criança Santo Antônio

LURDINHA, A MENINA COM MAIS

DE 2 ANOS, QUE AINDA NÃO CAMINHAVA

Na época em que, recém-formado, eu pretendia me tornar pediatra, escolhi o Hospital da Criança Santo Antônio para aprender, sobretudo com um grande e celebrado pediatra, o mestre Décio Martins Costa. E como aprendi!, sobretudo a simplificar os atendimentos, a valorizar não unicamente os sintomas e o exame clínico da criança. Décio Martins Costa dava uma grande ênfase aos fatores do meio ambiente familiar, sobretudo à boa ou má capacidade de maternagem da mãe e aos fatores socioculturais que cercavam a criancinha, em uma época em que isso não era comum.

Assim, nós, alunos, víamos com nossos próprios olhos e aprendíamos com o professor Décio o quanto o surgimento de uma grande quantidade de crianças gravemente desidratadas ou distróficas (com grau de desnutrição e de magreza tão grandes que às vezes a criança ficava reduzida a pele e ossos) era devido à total falta de informação dos pais sobre os cuidados primários com o filho, quando não um triste fruto do abandono, físico e afetivo. Igualmente observávamos crianças com equimoses, queimaduras

 

14 Notas sobre a minha formação como psiquiatra

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NOTAS SOBRE A MINHA

FORMAÇÃO COMO PSIQUIATRA

A minha formação psiquiátrica deu-se na Clínica Pinel de Porto Alegre, instituição particular, criada por Marcelo Blaya, que, por sua vez, fizera a sua formação em psiquiatria nos Estados Unidos, mais precisamente, na famosa Clínica Menninger, no estado de Kansas. Durante os quatro anos em que lá permaneceu estudando e praticando a psiquiatria, Marcelo absorveu uma nova forma de compreender e manejar pacientes psiquiátricos hospitalizados, o que, sem dúvida, representou uma filosofia de atendimento que, na época, era o extremo oposto da filosofia vigente nos hospitais psiquiátricos brasileiros, então ainda chamados por muitos de hospícios.

A Clínica Pinel foi criada justamente com o propósito de implantar em nosso meio uma modalidade de atendimento hospitalar psiquiátrico em que, acima de tudo, o doente, por mais regressivo que fosse seu estado mental, fosse tratado por toda a equipe multidisciplinar de atendimento, em permanente treinamento continuado, como um ser humano, apto a resgatar suas capacidades perdidas ou nunca desenvolvidas e seu sagrado direito de viver com dignidade, não obstante suas limitações neuróticas ou psicóticas. Em outras palavras, a proposta da nova clínica consistia em modificar a realidade de que, salvo raras exceções, no Brasil o hospital psiquiátrico costumava funcionar como um depósito de doentes mentais, crônicos em sua grande maioria, com a finalidade precípua de proteger a família e a sociedade.

 

Na Clínica Pinel de Porto Alegre

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Na Clínica Pinel de Porto Alegre

O USO DE INSULINOTERAPIA.

O CHOQUE INSULÍNICO EM FERNANDO

Eu mal tinha começado minha formação de psiquiatra na Clínica Pinel de

Porto Alegre, no início dos anos de 1960, e já percebi que Marcelo Blaya tinha estabelecido uma série de recursos prioritários para o atendimento dos pacientes que permaneciam internados ou eram atendidos no regime de hospital-dia ou hospital-noite. Como já mencionei, o primeiro recurso era, sem a menor dúvida, o uso da ambientoterapia, com atendentes terapêuticos especialmente preparados para a prática de jogos de salão, esportes, passeios, etc. e com uma praxiterapeuta especializada em comandar o importante setor da praxiterapia, oficina protegida, onde os pacientes faziam trabalhos de cerâmica, encadernação, tapetes, marcenaria, etc. Fazia parte da ambientoterapia, a utilização da dinâmica de grupo, em suas múltiplas modalidades. Usávamos muito pouco a medicação psiquiátrica, tanto porque na época a moderna e eficiente psicofarmacologia recém estava engatinhando, como também porque a ênfase do tratamento consistia na aplicação da psiquiatria dinâmica, ou seja, estudávamos os princípios básicos da psicanálise com a finalidade de compreendermos os conflitos profundos do psiquismo de nossos pacientes, no lugar de simplesmente aliviarmos os sintomas manifestos.

 

No Hospital Psiquiátrico São Pedro

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No Hospital Psiquiátrico São Pedro

O AUXILIAR DE ENFERMAGEM AGIA

COMO UM “CAÇADOR DE LOUCOS”

Com a finalidade de marcar o contraste entre o pioneirismo da Clínica

Pinel e os demais hospitais psiquiátricos da época, cabe mencionar um episódio que vivenciei no Hospital São Pedro, mais exatamente na parte destinada aos doentes crônicos, depositados na chamada Divisão Pinel do hospital. Após ter sido aprovado no concurso para médico desse hospital, fui designado para trabalhar na Divisão Pinel. Afortunadamente, passei a trabalhar sob a liderança do dr. Isaac Pechansky. Este propôs uma modificação na ideologia de tratamento e na estrutura da divisão, com o sábio propósito de fazer com que nosso serviço deixasse de ser apenas um mero depósito de doentes internados, que, desamparados e esquecidos por suas famílias, tendiam fortemente para uma cronificação.

O projeto de Pechansky consistia em dividirmos a Divisão Pinel em três alas: a dos crônicos, a dos doentes em estado intermediário de gravidade e com possibilidade de recuperação e a ala dos pacientes agudos, isto é, os que passavam pela recente instalação de algum quadro psicótico que exigia hospitalização. Esta, por definição do novo plano, deveria ser de curta duração, sendo feitos todos os esforços para que o paciente mantivesse contato com a família.

 

Na Brigada Militar

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Na Brigada Militar

O COMANDANTE DA BRIGADA MILITAR

ORDENOU: TODO BRIGADIANO QUE FOSSE

ALCOOLISTA SERIA SUMARIAMENTE

DESLIGADO DA CORPORAÇÃO.

O QUE, ENTÃO, ACONTECEU?

Na época em que eu iniciei as minhas funções como capitão médico, era bastante freqüente o número de militares na ativa que manifestavam claros sinais e sintomas de alcoolismo. Nossa conduta médica consistia em remover esses brigadianos – soldados, sargentos, suboficiais e, inclusive, alguns oficiais – para a unidade psiquiátrica do Hospital da Brigada Militar, com vistas a fazer uma completa avaliação clínica. As graves complicações, como neuropatias e, especialmente, cirrose hepática, resultante do alcoolismo crônico, eram relativamente freqüentes. Se fosse necessário, era realizado um tratamento psicoterápico, com a cooperação do serviço social e de psicologia.

Não obstante o fato de verificarmos resultados alentadores com a nossa conduta terapêutica, o número de recidivas do alcoolismo era bastante grande. Quando assumiu o novo comandante, um coronel essencialmente disciplinador e firme em sua tomada de decisões, talvez cansado de suportar o fato de os procedimentos médicos resolviam muito pouco, ele decidiu baixar uma portaria que deixava de considerar o alcoolismo como um problema médico psiquiátrico e passava a enquadrá-lo como uma grave transgressão da disciplina. Assim, os abusadores do álcool seriam punidos e até expulsos da corporação.

 

No Programa de Educação Médica Continuada (PEC)

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No Programa de Educação Médica Continuada (PEC)

A FILOSOFIA E O MODO DE AGIR DO PEC

No fim da década de 1960, surgiu a idéia de criar-se junto à Associação

Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) um departamento que se encarregasse de introduzir em cidades do interior do Estado um moderno sistema de aprendizado na formação de uma autêntica identidade médica e da prática cotidiana da medicina, especialmente no que tange ao relacionamento médico-paciente. A iniciativa principal desse projeto foi do saudoso

Isaac Lewin, a quem já me referi antes. Falecido muito cedo, Lewin foi um grande idealista, com uma concepção integrativa (biopsicossocial) da medicina.

O projeto foi aceito pela diretoria da AMRIGS e Lewin montou uma equipe pioneira, constante de um grupo fixo composto por um médico internista, um gineco-obstetra, um pediatra, um cirurgião e um psiquiatra, além de outros colegas especialistas, como radiologista, laboratorista, etc.

Eu tive a ventura de ser convidado pelo querido Lewin para ser o integrante da primeira equipe formada. Foram feitos os necessários contatos com os grupos médicos de determinadas cidades de porte médio do interior que já possuíssem hospital em boas condições de funcionamento. Dentre as cidades interessadas, por uma série de critérios, a primeira escolhida foi

 

38 Minhas peripécias para ingressar como candidato no instituto daSociedade Psicanalítica de Porto Alegre

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MINHAS PERIPÉCIAS PARA INGRESSAR

COMO CANDIDATO NO INSTITUTO DA

SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Informações gerais sobre a formação como psicanalista

No início da década de 1960, em pleno alvorecer da Clínica Pinel, liderados por Marcelo Blaya, nós, os então psiquiatras residentes da clínica, decidimos nos candidatar a fazer a formação como psicanalistas, não só porque queríamos enaltecer a qualidade diferenciada e a imagem de primeira grandeza da nossa Pinel, como também porque estávamos acreditando na ciência psicanalítica e desejávamos nos aprofundar na sua teoria, técnica e prática.

Para tanto procuramos o Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre, hoje Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), naquela época a única instituição no Estado filiada à International Psychoanalytic Association

(IPA), matriz internacional da psicanálise.

A rotina habitual para ingressar como “Candidatos” no Instituto do

Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre requeria os seguintes passos: fazer a inscrição, escolher um nome de sua preferência entre os poucos psicanalistas didatas que constavam na nominata do instituto e aguardar uma vaga na agenda do psicanalista escolhido para iniciar a “análise didática”. Se tudo estivesse correndo bem, após o mínimo de um ano dessa análise, com o aval do seu analista, o pretendente à formação adquiria a condição de candidato, oficialmente reconhecido, isto é, com o direito assegurado de participar de todo o programa curricular (seminários teóricos, supervisões clínicas, reuniões científicas e credenciamento para participar de qualquer congresso de psicanálise local, nacional ou internacional).

 

39 As primeiras supervisões oficiais de atendimento psicanalítico

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REFLEXÕES

Na atualidade, penso que muito dificilmente algum analista didata teria recusado iniciar a análise com um pretendente a candidato que já fora avaliado em entrevistas de seleção prévia, que estava bem recomendado por demais colegas e que, segundo o próprio Guedes, estava bem motivado para fazer uma análise de verdade. Entretanto, em nenhum momento guardei algum tipo de rancor contra o analista e jamais diria que ele foi rígido demais, inflexível ou autoritário comigo. Simplesmente ele foi fiel aos cânones da época. Na atualidade, os analistas, em sua grande maioria, perderam o medo de chegar mais perto dos pacientes e vice-versa. Também não levam ao pé da letra a necessidade de manter um completo anonimato e o rigoroso cumprimento da regra da “neutralidade”, tal como a IPA preconizava.

AS PRIMEIRAS SUPERVISÕES

OFICIAIS DE ATENDIMENTO

PSICANALÍTICO

Nos institutos psicanalíticos do mundo inteiro, a atividade de supervisão do trabalho psicanalítico clínico dos candidatos, tanto a individual como a coletiva, é extremamente valorizada. Em termos de análise individual, são feitas no mínimo duas supervisões, com analistas diferentes, à escolha do candidato. Cada supervisão, feita separadamente, deve se prolongar por dois anos, sempre mantendo com os pacientes um mínimo de quatro sessões semanais. No meu caso, a primeira supervisão, embora eu já estivesse autorizado, demorou um longo tempo para iniciar-se, pela simples razão de que as pessoas que procuravam análise, em sua imensa maioria, eram do sexo feminino, e havia uma imposição por parte do nosso Instituto de

 

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