Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão

Autor(es): Zimerman, David E.
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Capítulo 1 - As transformações no perfil do paciente, do analista e do processo analítico. Para onde vai a psicanálise?

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As Transformações no Perfil do Paciente, do Analista e do Processo

Analítico. Para Onde Vai a Psicanálise?

Quando eu estava tentando elaborar a mecânica quântica, a experiência deu-me a oportunidade de aprender um fato notável: que uma nova realidade científica não triunfa por convencer seus opositores, fazendo-os ver a luz, senão que, muito antes, porque eventualmente seus opositores morrem e surge uma outra geração que se acha familiarizada com aquela.

Max Plank, in Bion, em Seminários clínicos.

Em relação às constantes declarações de que “a psicanálise está morta”, eu poderia seguir o exemplo de Mark Twain, que, tendo lido num jornal o anúncio de sua morte, dirigiu ao diretor do mesmo um telegrama comunicando-lhe:

“A notícia de minha morte está muito exagerada”.

S. Freud, in Alain de Mijolla.

O mundo vem sofrendo sucessivas, aceleradas, vertiginosas e profundas transformações em todas as áreas e dimensões, como o são as sociais, as econômicas, as culturais, as

éticas, as espirituais, as psicológicas, além das científicas, entre outras, e, naturalmente, no rastro de todas essas, também a psicanálise vem sofrendo uma continuidade de crises e mudanças em sua trajetória de pouco mais de um século de existência.

 

Capítulo 2 - Os principais autores das sete escolas de psicanálise e sua contribuição à técnica. Méritos e críticas

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Os Principais Autores das Sete Escolas de Psicanálise e sua Contribuição à

Técnica. Méritos e Críticas

A essência da sabedoria da psicanálise não está neste ou naquele autor; está entre eles.

O maior mal da humanidade está no problema do mal-entendido da comunicação entre as pessoas.

Dando continuidade ao assunto tratado no capítulo anterior, de modo sumarizado, cabe traçar um quadro sinóptico das contribuições

à técnica psicanalítica, por parte de autores de distintas épocas, geografias e escolas, discriminando-os individualmente, com as particularidades que tornam a prática clínica bem distinta uma da outra, embora, de alguma forma, todas as contribuições estejam, de algum modo, entrelaçadas, conservando a essência da ciência psicanalítica. A obra técnica de cada autor será descrita, de forma resumida, tanto nas contribuições que são julgadas consensualmente como meritórias quanto, de igual modo, em separado, nos aspectos que constituem o alvo de críticas.

 

Capítulo 3 - Como agem as terapias analíticas?

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Como Agem as

Terapias Analíticas?

Todos nós acabamos nos acostumando com uma coisa extraordinária: esta conversa esquisita, que denominamos [...] psicanálise, funciona. É inacreditável, mas ela funciona.

Bion (Conversando com Bion, p. 127)

ALGUNS QUESTIONAMENTOS

Uma das perguntas mais freqüentes que tanto pacientes quanto alunos e, de certa forma, todos nos fazemos refere-se diretamente

à incerteza de qual é ou de quais são os fatores que determinam o que é a meta maior de qualquer terapia analítica: a obtenção de verdadeiras mudanças no psiquismo, logo, na conduta do paciente. Até pouco tempo atrás, a resposta era mais simples, e fundamentava-se nos efeitos das interpretações do analista, dirigidas ao inconsciente do paciente, levando à obtenção de insights, os quais, passando por um processo continuado de elaborações, conduziriam à cura analítica.

Na atualidade, com o reconhecimento de que muitos outros fatores possam intervir no processo de aquisição de mudanças psíquicas, as coisas não são mais tão simples, de sorte que nos instiga a refletir sobre uma série de questões, tais como, entre outras: continua válida a idéia de que a interpretação seja virtualmente o

 

Capítulo 4 - O primeiro contato. A entrevista inicial. Os critérios de analisabilidade. O contrato

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O Primeiro Contato.

A Entrevista Inicial. Os Critérios de Analisabilidade. O Contrato

Não existe experiência mais terrível para uma criança – futuro adulto – do que não se sentir entendida, escutada e vista; em contrapartida, nada é mais importante na entrevista inicial que o paciente saia da sessão com a sensação, em relação ao analista, de que foi compreendido, escutado e de que encontrou um amigo.

O PRIMEIRO CONTATO

DO PACIENTE COM O ANALISTA

Comumente, o primeiro contato que um pretendente a tratamento analítico estabelece com o analista é por meio de uma chamada telefônica, ora falando diretamente, ora deixando um recado para que a ligação seja retornada. O que cabe consignar é que já aí começa a formação de algum tipo de vínculo, o qual pode vingar ou não. De fato, a forma como o possível paciente utiliza a sua conduta, atitude e linguagem podem estar expressando uma importante maneira de comunicação, portanto, um jeito seu de “ser”, em um nível que extrapola o da linguagem unicamente verbal.

 

Capítulo 5 - O setting: a criação de um novo espaço

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O Setting: A Criação de um Novo Espaço

O setting é um novo espaço, muitíssimo especial, que está sendo conquistado pelo paciente, no qual ele concede ao seu analista uma nova oportunidade de poder reviver com esse – à espera de outros significados e soluções – as antigas e penosas experiências afetivas que foram malsolucionadas em seu passado remoto.

CONCEITUAÇÃO

Toda terapia psicanalítica deve se processar em um ambiente especial, tanto do ponto de vista físico quanto de uma atmosfera emocional apropriada para a efetivação de continuadas e prolongadas experiências emocionais, em uma situação rara, única e singular. Tudo isso configura a formação de um setting (comumente traduzido em português por “enquadre”), que pode ser conceituado como a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o processo psicanalítico.

Assim, o setting resulta de uma conjunção de regras, atitudes e combinações, tanto as contidas no “contrato analítico” (conforme descrito no capítulo anterior) como também aquelas que vão se definindo durante a evolução da análise, como os dias e horários das sessões, os honorários com a respectiva modalidade de pagamento, o plano de férias, etc.

 

Capítulo 6 - Uma re-visão das “regras técnicas” recomendadas por Freud

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Uma Re-visão das “Regras Técnicas”

Recomendadas por Freud

Não devemos confundir ter amor às verdades com um desejo de certeza. Em nosso mundo relativo, toda certeza absoluta é uma mentira. Muito mais do que ser um obsessivo caçador de verdades, o que importa é que sejamos pessoas verdadeiras.

Nestes pouco mais de 100 anos de existência da psicanálise como ciência, entre avanços e recuos, ampliações e supressões, integrações e cisões, créditos e descréditos, acima de tudo ela vem sofrendo ininterruptas e profundas transformações, em que os sucessivos avanços na teoria repercutem diretamente na técnica, e a recíproca é verdadeira.

Ao longo dos seus trabalhos sobre técnica psicanalítica, mais consistentemente estudados e publicados no período de 1912 a 1915,

Freud deixou um importante e fundamental legado para todos os psicanalistas das gerações vindouras: as regras mínimas que devem reger a técnica de qualquer processo psicanalítico. Muito embora Freud as tenha formulado como “recomendações”, elas são habitualmente conhecidas como “regras”, talvez pelo tom pedagógico e um tanto superegóico com que ele as empregou nos seus textos.

 

Capítulo 7 - A pessoa real do analista no processo psicanalítico

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A Pessoa Real do Analista no Processo Psicanalítico

Por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência.

Assim agindo, ele apenas repetiria o erro dos pais cuja influência sufocou a independência da criança e substituiria a antiga sujeição por uma nova.

S. Freud (1940)

Existe uma polêmica entre os psicanalistas – um tanto recente, que, entretanto, vem se intensificando cada vez mais – relativa à seguinte questão: a interação paciente-analista que permeia o curso da análise e é a sua matéria-prima fundamenta-se unicamente nas vicissitudes e diferentes configurações do fenômeno transferencial-contratransferencial ou, indo além disso, a pessoa real do terapeuta, com seus atributos físicos e emocionais, conjunto de valores, jeito de ser, sua conduta na vida real e idiossincrasias pessoais, também exerce uma decisiva importância no desenvolvimento do processo analítico?

 

Capítulo 8 - Resistências. A reação terapêutica negativa

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Resistências. A Reação

Terapêutica Negativa

Dize-me como resistes e dir-te-ei como és!

VISÃO HISTÓRICO-EVOLUTIVA

Desde os primórdios da psicanálise, o fenômeno resistência tem sido exaustivamente estudado em sua teoria e em sua técnica, mas, nem por isso, na atualidade, perdeu em significação e relevância. Pelo contrário, continua sendo considerado a pedra angular da prática analítica, e, cada vez mais, os autores prosseguem estudando-o sob renovados vértices de abordagem e de conceituação.

Na qualidade de conceito clínico, a concepção de resistência surgiu quando Freud discutiu as suas primeiras tentativas de fazer vir

à tona as lembranças “esquecidas” de suas pacientes histéricas. Isso data de antes do desenvolvimento da técnica da associação livre, quando ele ainda empregava a hipnose, e a sua recomendação técnica era no sentido de insistência, por parte do psicanalista, como uma medida contrária à resistência, por parte do paciente. Este método de coerção associativa, empregado por Freud, incluía uma pressão de ordem física (mão na testa do paciente) que ele próprio procedia e recomendava, a fim de se conseguir a recordação e a verbalização dos conflitos passados.

 

Capítulo 9 - Contra-resistência. Os conluios inconscientes

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Contra-resistência.

Os Conluios Inconscientes

Quase sempre há fogo oculto sob as cinzas silenciosas, com uma enganadora aparência de inatividade.

CONCEITUAÇÃO

É necessário reiterar que assim como a resistência pode partir unicamente do paciente, também pode proceder do analista, embora o que, sobretudo, vai nos interessar no presente texto é a interação resistencial-contraresistencial que se processa entre ambos, no campo analítico.

A contra-resistência chegou a ocupar um significativo espaço na literatura psicanalítica, como pode ser constatado nas vezes em que

Racker (1960) emprega o termo e nas conceituações que ele faz acerca deste fenômeno, em seu consagrado livro sobre técnica psicanalítica. Gradativamente, os autores foram deixando de abordar e de nomear diretamente a presença das manifestações da contra-resistência, talvez pela possibilidade de que as considerassem enquadradas no fenômeno da contratransferência. Não há dúvida quanto ao fato de que os fenômenos de resistência e transferência – e por conseguinte, os de contra-resistência e contratransferência – estão intimamente conectados, como Freud estudou exaustivamente; não obstante, acompanhando muitos autores, também entendo que existe uma nítida diferença conceitual, sendo útil estudar e nomeálos separadamente.

 

Capítulo 10 - O contra-ego: uma estrutura resistencial patológica

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O Contra-ego: Uma Estrutura

Resistencial Patológica

Eu vi a face do inimigo: era a minha própria.

Da sabedoria oriental

O ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo [...]

Há uma resistência contra a revelação das resistências.

S. Freud (1937)

Neste capítulo pretendo propor o termo

“contra-ego” para designar, de forma genérica, um complexo jogo dinâmico oriundo de alguma forma de organização patológica que, a partir do próprio ego do sujeito, no qual ela está sediada, e agindo desde dentro dele, processa um verdadeiro ato de constante ataque, boicote e sabotagem contra as capacidades sadias e criativas e a ânsia de crescimento dele mesmo. Esse fenômeno psíquico representa ter uma significativa relevância na prática analítica, não só pela sua importância na evolução do tratamento analítico, mas também pela alta freqüência de seu surgimento na prática clínica cotidiana.

UM ESCLARECIMENTO SEMÂNTICO DE

TERMOS REFERENTES À ESTRUTURA

DO PSIQUISMO

Na literatura psicanalítica, os termos alusivos às instâncias psíquicas, que muitas vezes aparecem assemelhados entre si, nem sempre guardam o mesmo significado semântico, o que pode causar uma imprecisão, quando não uma certa confusão (por exemplo: Freud utilizou ego ideal, ideal do ego e superego, de forma superposta e algo indistinta). Por isso, entendi ser útil situar o leitor quanto à significação que cada um dos termos mencionados representa neste capítulo e ao longo do livro.

 

Capítulo 11 - Transferências. Transferência de impasse. Psicose de transferência

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Transferências. Transferência de

Impasse. Psicose de Transferência

Na prática analítica o que é mais relevante? O clássico conceito de Freud de que a transferência resulta de uma compulsiva necessidade de repetição ou a tendência atual de considerá-la como uma repetição de necessidades, que não foram compreendidas e resolvidas no passado primitivo. Ou ambas têm a mesma importância?

EVOLUÇÃO DA CONCEITUAÇÃO

Embora o fenômeno transferencial esteja virtualmente presente em todas as inter-relações humanas, o termo “transferência” deve ficar reservado unicamente para a relação presente no processo psicanalítico, o qual, juntamente com a “resistência” e a “interpretação”, constitui o tripé fundamental da prática da psicanálise, dando-lhe o selo de genuinidade psicanalítica, entre outras modalidades psicoterápicas.

De forma extremamente genérica, podese conceituar o fenômeno transferencial como o conjunto de todas as formas pelas quais o paciente vivencia com a pessoa do psicanalista, na experiência emocional da relação analítica, todas as “representações” que ele tem do seu próprio self, as “relações objetais” que habitam o seu psiquismo, bem como os conteúdos psíquicos que estão organizados como

 

Capítulo 12 - Contratransferência

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Contratransferência

Todo terapeuta tem direito de sentir difíceis sentimentos contratransferenciais, como medo, dúvidas, raiva, excitação, confusão, tédio, etc., pois, antes de ser médico, psicólogo, psicanalista, ele é um ser humano. Isso é possível desde que tenha capacidade, coragem e honestidade de reconhecê-los, de modo a não permitir que esses sentimentos se transformem numa contratransferência patológica e, melhor ainda, que possa transformá-los em empatia. Ele pode, sim, envolver-se afetivamente, porém jamais ficar envolvido nas perigosas malhas da contratransferência.

EVOLUÇÃO DO CONCEITO

O estudo do fenômeno da contratransferência está intimamente ligado ao da transferência, de forma que ambos são indissociáveis, um não existe sem o outro, pois, muitas vezes, se superpõem e se confundem entre si.

Da mesma forma também os fenômenos da

“resistência-contra-resistência” podem estar superpostos e confundidos com os da “transferência-contratransferência”.

A contratransferência costuma ser considerada como um dos conceitos fundamentais do campo analítico, ao mesmo tempo em que a sua conceituação é uma das mais complexas e controvertidas entre as distintas correntes psicanalíticas. Assim, discussões sobre suas possíveis inconveniências ou prováveis vantagens como um excelente instrumento da prática psicanalítica; o ocultamento ou a valorização exagerada desse fenômeno na literatura psicanalítica; problemas semânticos devido às diferentes formas de sua compreensão; a divergência quanto a se a contratransferência é um fenômeno unicamente inconsciente, ou também consciente; e a possibilidade de ela ser utilizada pelo psicanalista de forma benéfica ou inadequada e iatrogênica são alguns dos aspectos que têm acompanhado a sua história no curso das sucessivas etapas da psicanálise. Não obstante tudo isso, a importância da contratransferência continua plenamente vigente, tendo seu interesse aumentado à medi-

 

Capítulo 13 - A comunicação verbal e a não-verbal na situação analítica

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A Comunicação Verbal e a

Não-verbal na Situação Analítica

Nenhum mortal pode guardar um segredo. Se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas de seus dedos...

S. Freud

(Caso Dora)

Se eu pudesse te dizer/Aquilo que nunca te direi/

Tu poderias entender/Aquilo que nem eu sei.

Fernando Pessoa

(Quadras ao Gosto Popular )

A importância da comunicação na existência humana é tão fundamental que cabe iniciar este capítulo lembrando a afirmativa de que “o maior mal da humanidade é o problema dos mal-entendidos da comunicação”. Mais especificamente no campo da psicanálise, ninguém contesta a afirmativa de que aquilo que o ser humano tem de mais primitivo e imperioso é sua necessidade de comunicação, de modo que, na situação analítica, a comunicação vai “além das palavras”, pois há um campo do processo analítico no qual as palavras não dão conta do que está acontecendo.

Assim, já pertence ao passado, tal como foi transmitida e utilizada por algumas gerações de psicanalistas, a recomendação técnica de Freud de que o processo psicanalítico dependeria, unicamente, do aporte, por parte do analisando, da verbalização da sua livre associação de idéias, como parte essencial da

 

Capítulo 14 - As atuações (actings)

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As Atuações (Actings)

Na psicanálise atual, o acting deixou de ser um nome feio; pelo contrário, representa uma importantíssima forma de uma primitiva comunicação não-verbal.

CONCEITUAÇÃO

Na literatura psicanalítica, o fenômeno acting (neste capítulo os termos “acting” e

“atuação” serão empregados indistintamente) aparece definido de forma imprecisa e designando distintas significações. O inegável é que ele se constitui como um dos aspectos mais importantes do processo psicanalítico, quer pelos múltiplos significados que comporta quer, também, pela sua alta freqüência. Assim, podese dizer que alguma forma de “atuação” surge em toda e qualquer análise, seja de forma benéfica ou maléfica, manifesta ou oculta, discreta ou acintosa, dentro (acting-in) ou fora

(acting-out) do consultório.

Nas primeiras formulações de Freud, o conceito de acting aludia tão-somente a uma modalidade de resistência que o paciente empregava, com a finalidade inconsciente de impedir que as repressões tivessem acesso à consciência, correndo o risco de elas serem lembradas. Constituía-se, portanto, em um fenômeno essencialmente pertinente ao processo analítico que, como tantos outros, deveria ser compreendido e interpretado pelo analista. Aos poucos, esse conceito nodal foi sofrendo ampliações e sucessivas transformações, de tal sorte que adquiriu um significado moralístico, denegritório, algo ligado à perversão, chegando ao extremo de designar e se confundir com toda forma de impulsividade, psicopatia, drogadição ou delinqüência.

 

Capítulo 15 - A atividade interpretativa

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A Atividade Interpretativa

Pisa, mas pisa devagar, porque estás pisando nos meus sonhos mais queridos.

Yeats

Amor sem verdade não é mais do que paixão; verdade sem amor não passa de crueldade.

W. Bion

Habitualmente, na literatura psicanalítica sobre técnica, a abordagem do tema relativo à atividade das intervenções do analista costuma ter o título de “Interpretação”; no entanto, na atualidade, colocar no singular um assunto tão amplo e que permite tantos vértices e dimensões de entendimento e de abordagem seria simplificar demasiado e sacrificar a riqueza do campo analítico. Prefiro a terminologia de “Atividade Interpretativa”. De fato, a interpretação vem sofrendo significativas e acentuadas transformações neste primeiro século de existência da ciência psicanalítica, notadamente naqueles aspectos que dizem respeito ao paradigma da vincularidade que vem caracterizando a psicanálise contemporânea, ou seja, que o processo analítico não fica tão centrado na pessoa do analisando, tampouco na do analista, mas sim no campo que se estabelece entre eles. Por um outro lado, desde os seus primórdios até a atualidade, continuam persistindo muitos pontos bastante polêmicos e controvertidos entre os psicanalistas em relação ao conteúdo, à forma, à finalidade e ao estilo de interpretar.

 

Capítulo 16 - Normalidade e patogenia dos estilos de interpretar. O uso de metáforas

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Normalidade e Patogenia dos

Estilos de Interpretar.

O Uso de Metáforas

O estilo é o homem.

Buffon

Fito-te – E o teu silêncio é uma cegueira minha.

Fernando Pessoa

Como consideração inicial, convém enfatizar que, na epígrafe deste capítulo, a frase de

Buffon – “o estilo é o homem” – por si só dános uma medida da importância do aspecto relativo ao estilo pessoal de os analistas interpretarem, mesmo que os princípios técnicos que norteiam a atividade interpretativa de cada um de nós sejam os mesmos. Aliás, a palavra

“estilo” deriva do étimo latino stilus, cujo significado original está na derivação da palavra

“estilete”, com uma dupla face deste instrumento: uma face cortante, para separar a matériaprima, o barro, por exemplo, e uma outra face lisa do estilete, para aparar, dar forma e contornos à escultura que será erigida a partir do barro que, por sua vez, será transformado em cerâmica, quando submetido a processos especiais de tratamento. A analogia entre o estilete e o estilo da função interpretativa parece-me bastante evidente.

 

Capítulo 17 - Análise do consciente. A função do pensar

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Análise do Consciente.

A Função do Pensar

Quando o consciente está perturbado,

é impossível tomar interesse pelo inconsciente.

S. Freud (in Mijolla, 1988)

Que tipo de psicanálise é necessária para o consciente?

W. Bion (1970)

CONCEITUAÇÃO

Não obstante o fato de a literatura psicanalítica, só excepcionalmente e de forma muito passageira, empregar a terminologia “análise do consciente” e, tampouco, dedicar uma atenção aos aspectos conscientes que devem ser analisados no seu paciente, particularmente creio que se trata de uma abordagem sobremaneira importante no processo de qualquer terapia analítica.

Assim, acompanhando Bion que, em algumas passagens de seus escritos (no livro

Atenção e interpretação aparece a pergunta:

“Que tipo de psicanálise é necessária para o consciente?”), faz alusão a uma falta de uma análise apropriada para o consciente, também me custa entender por que a psicanálise, ao lado da óbvia importância fundamental do inconsciente, não privilegia igualmente um aspecto tão importante como é o fato de que nossas atitudes e decisões conscientes ocupam um espaço enorme no cotidiano de nossa vida psíquica.

 

Capítulo 18 - Insight – elaboração – crescimento mental

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Insight – Elaboração –

Crescimento Mental

O objetivo de uma análise não é o de o paciente vir a ficar igualzinho ao analista, e estar curado igualzinho ao seu analista, mas, sim, o de ele vir a tornar-se alguém que está se tornando alguém!

Bion

Comumente, os analistas estão habituados com a terminologia Insight – Elaboração –

Cura. No entanto, por razões que serão expostas mais adiante, preferi usar “crescimento mental”, no lugar de “cura”.

INSIGHT

A atividade interpretativa do psicanalista leva aos insights do analisando, sendo que a lenta elaboração dos mesmos é que irá possibilitar a obtenção de mudanças psíquicas, objetivo maior de qualquer análise. A composição da palavra in (dentro de) + sight (iluminação), por si só, evidencia o seu significado de que

“se fez uma luz na mente do paciente”. O interessante é que, às vezes, essa iluminação interna se processa muito lentamente, até que ocorre um flash repentino, de forma um tanto parecida com o entendimento súbito de uma piada, após ter decorrido algum tempo que ela foi contada. A importância do insight no processo curativo de um tratamento analítico justifica que se pormenorize e discrimine algumas de suas particularidades. Assim, proponho uma diferenciação na qualidade do insight, segundo a escala a seguir:

 

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